Cabeça de Rato


27/01/2009


Cabeça de Rato Edição 113

Cabeça de Rato

JANEIRO DE 2009

- EDIÇÃO Nº 113

- ANO XXI

- Fundado em 09/12/1988

--

  EDITORES:

- Álvaro Góis

- Flávio Magalhães

- Josessandro Andrade

- Zito Jr.

Escrito por Flávio Magalhães às 12h04
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Cabeça de Rato EDIÇÃO Nº 113

- Severino Gomes Cassimiro, o BIU GOMES, nasceu no Sítio Varejão, município de Serra Branca, Cariri Ocidental paraibano, no ano de 1927. Filho de Sebastião Gomes Cassimiro e Maria Gomes Meira. Sua arte de cantador repentista começou logo cedo, aos doze anos de idade, quando ensaiava os seus primeiros versos junto aos familiares e amigos da comunidade onde morava. Seus primeiros parceiros de poesia e cantoria pé-de-parede foram Inácio Bezerra (Bezerrinha) e João Furiba. O repentista Biu Gomes por diversas vezes foi convidado a se apresentar nos estados da região Sudeste, principalmente, em São Paulo, onde se apresentava nos centros de cultura nordestina. O poeta faleceu na cidade de Serra Branca na década de 90.

Escrito por Flávio Magalhães às 12h00
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Rato Flávio

Os poemas desta página são de autoria de

Flávio Magalhães

 

LÍNGUA MORTUÁRIA

 

O suicídio-vermífugo

Sangrando falsas-palavras

Nervos nas verticais.

Neurônios retardados

Exaustos de mediocridade

Simetria cravada

Na loucura da janela

Onde se perderam

Todas as metáforas.

Não há mais canções vermelhas

Enclausuradas na versão

Do espelho.

Apenas a língua imóvel

Transitada pela fumaça

Do cigarro,

Verbo-morto pelo veneno

Amorfo dos sem(tidos)...

 

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BECO DA FACADA

 

João, bandido da fedentina do beco do lixo

Toma conta da madrugada

Horrorizando horizontes

Na solitária linha do trem

 

Crasher Lomma bailava

Sobre seus desejos

Com hálito de cachaça e fumo

E um enfadonho guisado

Feito especialmente para ele.

Poeira & abandono angustiam a rua

Ratos passeiam

Sob a luz do poste,

Cães uivam ao léu

 

João está bem vivo

Apesar da Polícia no seu encalço

Escrito por Flávio Magalhães às 11h52
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Sua pistola está sempre cheia

De balas sabor metálico

Não vai ser fácil capturá-lo...

 

A vizinhança

Covardemente dorme

Enquanto, mecanicamente,

Ele faz amor com Crasher Lomma

 

Tempo, verme abstrato,

Passa rápido

Ao encontro da Sra. Morte...

Está amanhecendo,

Tenho que ir de encontro

Da minha sorte.

 

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BALA(DA) PERDIDA

 

O Príncipe Inglês pediu 10%

O Vendedor de notícias alheias

Anunciou a canção matemática

Informante, comovente...

Cantas uma balada

De repente para o Príncipe.

Nada feito, gritou servil(mente)

Com sua voz rouca,

Só se virar matéria de jornal.

- São 22% e não se fala mais nada!

A violência pode ser negociada

Pense grande, Príncipe Inglês.

- São 40% e não se fala mais nada!

- OK, você venceu...

 

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- Os poemas desta página são de autoria de Flávio Magalhães. “Beco da Facada”,

 publicado, originalmente no C.R. nº 65, novembro de 1998.

Escrito por Flávio Magalhães às 11h50
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Rato Sandro

UM DRAMA NO FERRO NOVO

 

 

NARRO DE FORMA ESPONTÂNEA

UMA HISTÓRIA PRO  POVO

NO BAIRRO DO FERRO NOVO

NA CIDADE DE SERTÂNIA

COM UMA LUZ INSTANTÂNEA

A VIATURA NA PORTA

>E  UMA VERDADE TORTA

ENVOLVE UMA INOCENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

 HOJE SE LEVANTA FALSO

CONTRA UMA MÃE DE FAMÍLIA

BANDIDO EM SUA HOMILIA

ENVOLVE A JUSTIÇA EM LAÇO

COMPANHIA PRO  FRACASSO

PRÁ ELE  NÃO SOFRER SÓ

E  UMA CENA DE FAZER DÓ

ME DOEU AMARGAMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

Escrito por Flávio Magalhães às 11h45
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OS FILHOS SÃO PASSARINHOS

EM FOME, FRIO E MALTRATO>

PERDIDOS LÁ PELO MATO

POR NÃO TER CALOR NO NINHO

TODO ESSE BURBURINHO

ME LEMBRA OUTRA QUITÉRIA

QUE A INJUSTIÇA DELETÉRIA

 ACUSOU MALDOSAMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

 NÃO FALTA JURISPRUDÊNCIA

NESSE EXEMPLO CITADO

NOS DEIXA PENALIZADO

AO SE VER TANTA CARÊNCIA

É DE FALTAR PACIÊNCIA

COM TANTOS ENGRAVATADOS

SEM SEREM INCOMODADOS

SE  AGEM IMPUNEMENTE

>CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

O PAI GRANDE PASSARINHO

JÁ FALA EM VENDER A CASA

POIS  FICOU SEM UMA ASA

PERDIDA PELO CAMINHO

ENFRENTA QUALQUER ESPINHO

PRÁ PAGAR UMA FIANÇA

SENTE A DOR DE UMA CRIANÇA

PELA MÃE QUE TÁ AUSENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

Escrito por Flávio Magalhães às 11h34
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QUER SABER QUEM É QUITÉRIA?

PERGUNTE NO FERRO NOVO

AO POETA GATO NOVO

LAMENTANDO ESSA MISÉRIA

VIZINHA HONESTA E SÉRIA

>SOFRENDO ESTA FERIDA

A CHAGA DA APARECIDA

TÃO CONHECIDA DA GENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

 COM MALUF EM LIBERDADE

RESPONDENDO SEUS PROCESSOS

EU PERGUNTO NOS MEUS VERSOS

ONDE ESTÁ NOSSA  IGUALDADE?

E PRÁ TODA AUTORIDADE

QUE NÃO ENXERGA ESSE DRAMA

INDA REPOUSA NA CAMA

DORMINDO TRANQUILAMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

UM ALVARÁ DE SOLTURA

>PEÇO AO JUIZ DA COMARCA

QUE DEIXE ASSIM SUA MARCA

COM A PENA DA TERNURA

FAZENDO LITERATURA

AO INVÉS DE LETRA FRIA

O PAÍS BEM PODERIA

SER MAIS JUSTO E MAIS DECENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

DEIXO AQUI A PETIÇÃO

DE UM VATE DO MOXOTÓ

EXPRESSANDO A SUA DÓ

DA RACIONAL EMOÇÃO

E  CONFIO NO CORAÇÃO

TAMBÉM NA SABEDORIA

QUE A LEI SERÁ POESIA

PRÁ NÃO DEIXAR TRISTEMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

O poema desta página é de autoria de

Josessandro Andrade.

 

Escrito por Flávio Magalhães às 11h30
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Pirão de Repente 2


Mote: Brilha o sol iluminando

          Tudo quanto a terra cria.

 

Desponta o sol no nascente

O camponês vai pra roça,

A porca velha se coça

Nos tijolos do batente,

Corta mato com o dente,

Faz uma cama e dá cria,

Sem precisar cirurgia,

Nem parteira tocaiando,

Brilha o sol iluminando

Tudo quanto a terra cria.

 

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(De: João Paraibano, Princesa Isabel/PB. Decassílabo extraído do livro Poetas Encantadores, de Zé de Cazuza)

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VELHOS HÁBITOS

 

Pedro Álvares, o “Cabral”,

Não descobriu nossa terra

Ele só viu uma serra

E achou que era o tal.

 

Logo ancorou sua Nau

Lá pros lados da Bahia

Onde andou na companhia

De um bando de marginal.

 

Voltou para Portugal

Como um herói lusitano

Que nunca foi puritano

Nem nas noites de Natal.

 

Roubou-nos até o Pau

Que havia nas florestas

Fez instrumentos de festas

Na maior cara de pau.

 

Cabral causou muito mal

Com a sua “descoberta”

Somente uma coisa é certa:

Tudo virou Carnaval.

 

Se não fosse Portugal

A pátria do conquistador

Nossa terra era esplendor

A potência Ocidental.

 

Hoje somos um portal

Pra ralé do estrangeiro

Que vem gastar o dinheiro

Em turismo sexual.

 

Os políticos fazem igual

Nas granjas de aluguel

Discípulos de Maquiavel

Que agem igual a chacal.

 

Roubam pra ir pro jornal

E ficar mais conhecidos

Ajudando aos bandidos

Criam lei quase imoral.

 

Nessa terra colossal

Plantando, tudo se dá,

Vote certo e mudará

Os costumes de “Cabral”!

 

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(De: Eugênio Gomes de Macêdo, Sumé/PB)

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“Quando eu canto com Biu Gomes,

   Meu medo desaparece

   Eu dou um grito estrondoso

   Que toda serra estremece

   Quem está embaixo, não sobe

   Quem está em cima, não desce.”

 

 

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(De: Cabo Edésio, repentista monteirense, dando seu “cartão de visita”

ao parceiro de cantoria, o poeta Biu Gomes, numa bodega na cidade de Monteiro)

Escrito por Flávio Magalhães às 11h23
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EVANGELHO SEGUNDO AS MÃES

 

god god god

um dia disse à minha mãe

que deus em inglês

parecia com o cão:

dog dog dog

 

ela me ameaçou com apocalipses

e não se falou mais nisso.

 

 

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(De: Samuca Santos, Recife,  ocupante do Tamborete 3 da Galeria dos Mortais, que tem como patrono o também poeta Erickson Luna)

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ESPERANÇA (In Memorian)

 

Ouço moedas caírem no chão.

São trinados nefastos,

Trilha sonora do Apocalipse,

Acordes da escuridão.

 

Ouço gritos entre bombas

Míseros ecos em tempo aberto

Alinhados à frente do acaso

Desgraça programada via ondas.

 

Aqui Golias sempre vence Davi

E não adianta persistir

Pois esta é a tétrica sina.

 

Os leões mitômanos espalham ânsia,

Aniquilam – financiados por marionetes

Sepultam a esperança.

 

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(De: Rodrigo Santos, Serra Branca/PB. Poeta editor da Revista de Divulgação Literária RACHA QUENGO)

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PROPIAÇÃO

 

Eu fui o maior onanista de meu tempo

Todas as mulheres

Dormiram em minha cama

Principalmente cozinheira

E cançonetista inglesa

 

Hoje cresci

As mulheres fugiram

Mas tu vieste

Trazendo-me todas no teu corpo.

 

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(De: Oswald de Andrade, 1890 – 1954, poeta paulista e um dos principais integrantes do movimento da Semana de Arte Moderna de 1922)

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. para sui e cida

 

de tanto morrer antes

foice veloz no pescoço

de vez

 

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(De: Vamberto Spinelli Júnior, João Pessoa/PB)

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MÁGICO APOSENTADO

 

No quarto de ilusões

os objetos em repouso:

flores que viram lenços,

cartolas de fundos falsos,

cornucópias, espadas e espelhos.

Apenas as pombas jogam cartas

para matar o tédio

de uma assistência de coelhos.

 

 

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(De: Herval Mendes, Recife/PE. Poema extraído do livro A Madrugada e o Devaneio)

Escrito por Flávio Magalhães às 11h14
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Rato Zito

- Os poemas desta página são de autoria de Zito Jr.

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 À TODAS AS COISAS

 

Todas as coisas cansam umas das outras

Todas as coisas choram as suas perdas

E lamentam aquele momento fugidio

Entre as horas e as doces sobremesas

Saboreadas fartamente

No mundo dos espelhos.

Quero de volta meu jardim

Quero de volta meu bom dia

Meu fim de semana

Minha alegria.

Quero de volta meu anjo cor de canela

Quero de volta meu poema da manhã

Meu quadro miniatura, a janela,

Minha fada vestida de sol e pardais

Entrando pela porta que abro

Um olhar e um sorriso tímido

Batendo os tambores do meu peito.

Quero de volta todas as coisas

Que me emprestaram a felicidade

E que eu deixei cair pelo caminho...

 

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Mote: Em teu corpo desnudo eu encontrei

          O manjar que foi minha salvação.

 

Corri mundos, revirei pedras e achei

A certeza e também a negação

Os meus sonhos primeiros calcinados

Pela sorte madrasta em cruel ação

E num ato enlouquecido por muitos,

Entrei no olho de um enorme furacão

Em teu corpo desnudo eu encontrei

O manjar que foi minha salvação.

 

Vislumbrei belo céu e negro inferno

Em silêncio fiz minha observação

Fui soldado dentro dum fogo cruzado

E a morte deu-me sinal com a mão

Atravessei pontes , saltei muros

E fiz sólida uma outra construção

Em teu corpo desnudo eu encontrei

O manjar que foi minha salvação.

 

 

Esculpi as pedras em meu caminho

Balbuciando com fé minh’oração

Feri egos, queimei tratos e bandeiras

Vaguei sozinho no meio da escuridão

Comi meu prato frio, só de veneta

Mas quebrei as travas da minha prisão

Em teu corpo desnudo eu encontrei

O manjar que foi minha salvação.

 

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NATURAL

 

Toda ação, provoca uma reação.

Minha desculpa, minha maçã do amor

No poema-carrossel que nunca pára.

 

poemas  da autoria de Zito Jr

 

Escrito por Flávio Magalhães às 11h11
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- JANEIRO DE 2009

- EDIÇÃO Nº 113

- ANO XXI

- Fundado em 09/12/1988

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  EDITORES:

- Álvaro Góis

- Flávio Magalhães

- Josessandro Andrade

- Zito Jr.

 

NESTA EDIÇÃO:

* BIU GOMES, nossa capa

* Ivanildo Vila Nova

* Raimundo Caetano

* João Paraibano

* Eugênio Gomes de Macêdo

* Cabo Edésio

* Samuca Santos

* Rodrigo Santos

* Oswald de Andrade

* Vamberto Spinelli Júnior

* Herval Mendes

* Derivaldo Santana

* Gabriela Emanuela

* Odilon Lima

* Rildo Mariano

* Ricardo Mariano   

   

 

 

  Editores:

- Álvaro Góis

- Flávio Magalhães

- Josessandro Andrade

- Zito Jr. (zitojr@gmail.com)

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- Ilustrações: Zito Jr.

  Designer: Zito Jr./Raniere Soares

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Endereço para Correspondência:

Cabeça de Rato

Caixa postal 20     Sumé-PB

CEP: 58.540-000

......................................................

Para qualquer contribuição de livre e espontânea vontade:

C/C 5.804-1  Ag. 2697-2

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Escrito por Flávio Magalhães às 11h03
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