Cabeça de Rato


20/01/2009


Aqui vai umas poesias de um grande  amigo e poeta de Zabelê, autor do Livro "Meio Doido Meio Poeta"  como ele mesmo diz:"Zabelê me pariu, Recife me adotou".

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Meio Doido, Meio Poeta

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Sou meio doido e meio poeta
nem crente nem fariseu
não sou besta nem sabido
nem católico nem ateu
para falar a verdade
não sei inda quem sou eu

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O mundo me concedeu
morar no mato e na rua
hoje vivo mas tranquilo
mas a luta continua
minha vida já foi torta
que só um arco de pua

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Minha idéia é como a sua
a sua você conhece
quando a cabeça tá bamba
as pernas não obedece
aonde existe verdade
mentira não prevalece

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Quem apanha nunca esquece
quem pergunta quer saber
quem procura um dia acha
quem tem fome quer comer
só dar para o que não presta
quem não tem o que fazer

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Portanto quero dizer
a você quem sou agora
eu sou uma andorinha
que o bando botou pra fora
como uma alma penada
vagando de mundo afora

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Se você não ignora
eu lhe digo meu irmão
sou caminhante andarilho
retirante do sertão
limpando o suor do rosto
nos panos do matulão

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Sem rumo sem direção
meu ego sem tino avança
ora alegre e ora triste
ora adulto ora criança
igual celular de puta
sem crédito e sem confiança

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Meu espírito não se cansa
desde os tempos de menino
sigo a jornada da vida
com prudência tato e tino
feito um veículo sem freio
pelas curvas do destino

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Com chuva ou com sol à pino
eu adoro viajar
o destino não importa
o importante é chegar
se não vou sinto saudade
se chego quero voltar

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No dia que eu me acabar
escrevam no meu caixão
"AQUI JAZ UM IMIGRANTE
QUE FEZ SUA HABITAÇÃO
NA CIDADE DE RECIFE
MAS SEMPRE FOI AO SERTÃO"

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São Pedro preste atenção
pra que o senhor não se iluda
se o sistema aí falhar
e não tiver quem lhe acuda
pode chamar essa alma
que com certeza lhe ajuda

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Apresente a ele Buda
Charlie Chaplin e Lampião
Pinto velho do Monteiro
Bin Laden e rei Salomão
que ele falava neles
em mais de uma ocasião

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Quem vive assim tem razão
de sorrir de vez em quando
bebendo ouvindo piadas
curtindo a vida e brincando
e das ciladas da vida
viver sempre se livrando!

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Eduardo Viana

Escrito por Flávio Magalhães às 19h09
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UM ÉBRIO

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Os sentimentos do ébrio
Não tem medida que meça
Por sonhos e pesadelos
A vida lhe prega peça.
Quando a saudade desaba
Sua alegria se acaba
Onde a tristeza começa.

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O ébrio às vezes tropeça
No degrau da amargura
Afogando suas mágoas
Em busca de uma cura.
Mas quando vai para o chão
Jesus estende uma mão
Dar um sopapo e segura.

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Pela falta de ternura
De forma inconveniente
Perturba a sociedade
Tornando-se um delinqüente.
Contra a própria natureza
Em meio a sua fraqueza
Só ele sabe o que sente.

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Talvez passe em sua mente
Lembranças de uma paixão
Um passado que não volta
Corroendo o coração.
Ou seja, lá por que for
Deixem curar sua dor
Revivendo a emoção.

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Se tem alucinação
Devaneio ou vaidade,
Na embriaguez encontra
Sinais de felicidade.
Quem não puder ajudar
Evite então condenar
Sua sensibilidade.

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Por qualquer fatalidade
A alma sente um tormento,
Sujeito a frio e sereno
E intempéries do vento.
De lágrimas o rosto se molha
Mas lá de cima Deus olha
Todo seu padecimento.

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Vivendo no sofrimento
Sentindo desilusão
Por ninguém compreender
Seu pesar e aflição.
Nessa vida passageira
Atire a pedra primeira
Quem não sofreu por paixão.

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Todo ébrio tem razão
Pela sua insensatez
Pois é vítima da Indústria
Do álcool, por sua vez.
Devia ser amparado
Pois o Comércio é culpado
Pela sua embriaguez.

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Desculpe o ébrio, talvez
Não seja ele tão ruim.
Mesmo ele tendo defeito
Com artimanha e pantim.
Não o chame vagabundo
Pois eu duvido no Mundo
Quem não tem parente assim.

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Em bodega ou botequim
Não corrija com reprovo
Vendo ele correr perigo
Faça ciente o seu povo
Não lhe dê o abandono
Deixe ele dormir um sono
Pra depois beber de novo.

 

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Eduardo Viana...

Escrito por Flávio Magalhães às 18h38
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19/01/2009


NÃO TENHO MEDO DE NADA  (parte 01)
(ensaio para um folheto de cordel)
 
O folclore conta coisa
Que até o diabo duvida
Com riquezas de detalhes
Numa ação mais atrevida
Esmiúça, põe ao avesso
Passagens de sua vida
 
Um Cururu me contou
História pra se gravar
Em qualquer bom documento
Que agüente atravessar
Anos, séculos e milênios
E o fim, se ele chegar
 
Como toda boa história
Traz de praxe a tradição
De se criar em cima dela,
Construir-se outra versão,
Diferente não foi com esta
Passada no meu Sertão
 
Zona rural de Sertânia,
Lá no sítio Caroá,
Nasceu cabra cangaceiro,
Difícil de encontrar
Outro igual em todo o estado
Só mesmo se importar
 
Como todo sertanejo
Dura foi a sua vida
No seu cantinho sonhou
Em meio a toda uma lida
Trabalhou, fez sua parte,
Pra cidade, sua ida
 
Morando na Rua Velha
Amizades ele formou
Colegas só de cachaça
Foi o que mais encontrou
Outros sonhos vieram à tona
Muitas musas desejou
 
Assim, tocou o destino
Muitas rotas ele tomou
Queimou pestanas estudando
Num Concurso ele passou
E a partir desse dia
A estrada suavizou
 
Mora hoje na Paraíba
Monteiro é o lugar
É um competente carteiro
Movido à luz solar
Entrega as correspondências
Sem ter direito a errar

Escrito por Flávio Magalhães às 11h38
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Parte 02:

Mudaram-se suas atitudes
Não mais é mosca de bar
É magro como era antes
Não tem como engordar
Exercita-se diariamente
Andando de cá pra lá
 
Mas sua vida pessoal
Não quero aqui abordar
Deram-me um outro mote
Que não pude recusar
E o caso do curandeiro
Agora vou começar:
 
Certo dia, lá no sítio
- E mestre Tota não mente -
Tirando ração pros bichos
Ouviu-se, assim, de repente:
- Não tenho medo da morte,
Nem de feras, nem de gente!
 
Foi um esturro medonho
Que passarinho assombrou
Mocós saíram das locas
Preá, caminho cruzou
A coruja na baraúna
Com o barulho se acordou
 
Bem no meio da capoeira
Deu o seu grito primal
Libertou os seus demônios
Fez, pra ele, o ideal
Deu um coice em velhos dogmas
Entrou noutro plano astral
 
Todo aquele entusiasmo
Com um feixe pra carregar
Sentiu uma forte fisgada
Furando seu calcanhar
Logo pensou: - Foi uma cobra
Que veio aqui me pegar!
 
Chamou quem estava perto
Pra ligeiro lhe ajudar
Pediu por todos os santos
Que conseguia lembrar
Dizia: - Sinto qu'é o fim!
Não posso assim terminar!
 
Recordaram de um curandeiro
Que morava ali por perto
Sem demora foram pra lá
Achando fazerem o certo
- Depressa, que tô morrendo!
'Inda quero ver meus "neto"!
 
Na cabana, onde o "véi" tava
Perto dum fogo sentado
Havia um caldeirão
Com ervas prum preparado
O velho mascava fumo
E fumava um baseado
 
Vendo aquela fuzarca
O velho se levantou
Bateu a poeira das calças
Da turba se aproximou
Deu uma forte escarrada
Só então que perguntou:
 
- O que diabo acontece?
Poderiam me dizer?
Comida só tem pra um,
Para mais num "vamo" ter!
- Viemos em emergência,
Nós não queremos comer...
 
Contaram pro curandeiro
Que dizia ser curado
De mordida de toda cobra
Da caatinga ao serrado
- Pra curar, tenho meu preço
E num curo no fiado.
 
- O seu preço não importa
Eu só não quero morrer!
Faremos aqui uma vaquinha
Dinheiro o senhor vai ter!
Não se preocupem, amigos,
Pagarei se eu viver...
 
Trinta Reais mais moedas
Juntaram na ocasião
O "véi" até achou pouco
Quis mudar de opinião
Mas logo se apiedou
Vendo aquela situação.
 
E com certa má vontade
Pediu pra ver o doente
Botou o seu olho clínico
No inchaço aparente
Localizou sem demora
A marca de um só dente
 
- Você teve muita sorte!
O velho analisou
- Não foi todo o veneno
Qu'essa cobra lhe botou
Mas metade de uma "carga"
Por isso, não lhe matou.
 
- Só qu'isso não quer dizer
Que você já escapou
O mal corre em suas veias
Mesmo o pouco que entrou
Se chegar lá pelos "peito"
Sua vida já findou...
 
 
O velho tirou a camisa,
Fez toda uma preparação:
Passou cinzas pelo corpo
Pôs um colar de cordão
Beijou uma correia de couro
Fez profunda oração
 
Deitou o moço numa esteira
Um tanto que assombrado
Pediu para os dois amigos
Ficarem bem do seu lado
Passarem um pouco de fé
Pr'ajudar no resultado
 
Chamou uma forte tragada
Que quase finda o cigarro
E soprou no ferimento
Cobrindo-o, depois, cum barro
Produzido por cinzas negras
E uma porção de catarro
 
Terminada esta fase
Foram pro encerramento:
Duas cusparadas na boca
O "véi" deu como ungüento
- Tá curado! - disse ao rapaz
Naquele exato momento
 
- Só depois de uma hora
(Pra cura se consumar)
Você pode beber água
Ou o que bem desejar.
Disse o velho, despedindo-se,
Voltando fumo a mascar
 
E na curva da estrada
Os três amigos sumiram
Com o suposto curado
Pelo caminho eles riram
Sentiram-se aliviados
Por todo o drama que viram
 
Chegando em casa puseram
O moço pra se deitar
Dentro dum quarto isolado
Pra ninguém poder olhar
Assim se completa a cura
Não se deve descuidar
 
Passaram-se uns três dias
Era quase fim de mês
O aperreio aumentou
Pânico se instalou de vez
Nada do pé desinchar
- Que diabo o "véi" fez?
 
E então voltou o medo
Da morte, por fim, chegar
- O que foi que deu errado?
Começou a imaginar
Chegou febre, calafrios
E vontade de mijar
 
De aspecto bem abatido
Abriu a porta do quarto
Assustou quem tava em casa
E já conhecia o fato
Barbudo, olhos profundos...
Nem todo bicho do mato
 
Sua pele ficara amarela
Por não ter a luz do dia
Sua preocupação maior:
Não perder o que acontecia
Lá na Estação das Artes
A Semana já fervia
 
No Alto do Rio Branco
Festança em ebulição
Entrava pela madrugada
Forró, xote e baião
Cá embaixo, outros artistas
Faziam apresentação
 
- Me levem pro hospital
Tenha, ao menos, dó de mim
Eu estou passando mal
Isso não é pra ser assim
Aquele "véi" me enganou
Bem próximo tá o meu fim
 
E numa carroça de burro
Levaram-no pro hospital
Estrebuchava que só um porco
Já prevendo o seu final
Na recepção, faz-se a ficha
Procedimento usual...
 
-Que ficha, que nada!
Não tão vendo a gravidade!?
Eu fui mordido de cobra
É grande a enfermidade
Só depois de atendido
Farei a sua vontade.
 
Em mais um "Deus nos acuda"
Foram ao médico de plantão
Resumiram toda a história
Com uma certa comoção
Só depois o médico olhou
A terrível inflamação
 
- Doutor, somente o soro
É a minha salvação!
Exclamou o pobre coitado
Com o coração na mão...
- Não vai ser preciso soro
Mas, pinça, iodo e algodão...
 
 
- O que o senhor tá dizendo?
É caso de amputação?
- Nada disso, meu rapaz...
(O doutor fez mangação)
- O motivo foi um espinho,
Do qual farei extração
 
E o doutor com uma pinça
Fez uma leve pressão
Tirou a ponta de um espinho
Do local da inchação
Passou iodo, limpou,
Enfaixou com precisão
 
Mesmo convalescente
Uma roupa nova botou
E partiu pra estação
Cheirando que só "fulô"...
Pegou uma programação,
Fez um canudo e "vazou"
 
Espetáculos, oficinas e torneios
Movimentaram o pátio da estação.
Palestras, lançamentos, musicais...
O Cabeça de Rato em mais uma edição,
Josessandro declamando para o público
E Tonho Amaral tomado pela emoção
 
Grandes nomes desceram deste trem:
Romualdo Freitas, supra-sumo teatral,
Grande Bida bolinando com a memória,
Talentos de Rona, Ricardo, Kalu Vital...
Do Pajeú veio a poesia nas asas de Cancão
Aplaudir o canto mágico de César Amaral
 
Quanto àquela falsa cura,
Toda a história se abafou.
Só de lembrar, vez em quando,
Muito já se vomitou...
- O safado do curandeiro
Foi quem me engabelou!
 
Agora, com o pé mais desinchado,
Assistia à festa da cultura.
Entre amigos, este foi o combinado:
O passado entregue à sepultura!
Diz a todos que deixou de beber,
Mas pra alguns ele já quebrou a jura.
 
- Deus permita que eu logo fique bom,
Pois não quero perder o Carnaval...
(Na TV a "prexeca" dava ibope;
Em Sertânia, esperava-se o Bacalhau...
É com honra que a memória de Romeu,
Enriquece festa tão tradicional)
 
Fui discreto, agi com polidez
Com o "santo" que aqui foi evocado
Não citei o seu nome, fui cuidadoso,
Pra mais tarde, eu não ser processado
Como cristão, faz pena, qu'ele até hoje
Com gente nunca tenha namorado.
 
(De: Zito Jr., concluído em 09 de fevereiro, Dia do Frevo)

Escrito por Flávio Magalhães às 11h25
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