Cabeça de Rato


27/01/2009


Cabeça de Rato Edição 113

Cabeça de Rato

JANEIRO DE 2009

- EDIÇÃO Nº 113

- ANO XXI

- Fundado em 09/12/1988

--

  EDITORES:

- Álvaro Góis

- Flávio Magalhães

- Josessandro Andrade

- Zito Jr.

Escrito por Flávio Magalhães às 12h04
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Cabeça de Rato EDIÇÃO Nº 113

- Severino Gomes Cassimiro, o BIU GOMES, nasceu no Sítio Varejão, município de Serra Branca, Cariri Ocidental paraibano, no ano de 1927. Filho de Sebastião Gomes Cassimiro e Maria Gomes Meira. Sua arte de cantador repentista começou logo cedo, aos doze anos de idade, quando ensaiava os seus primeiros versos junto aos familiares e amigos da comunidade onde morava. Seus primeiros parceiros de poesia e cantoria pé-de-parede foram Inácio Bezerra (Bezerrinha) e João Furiba. O repentista Biu Gomes por diversas vezes foi convidado a se apresentar nos estados da região Sudeste, principalmente, em São Paulo, onde se apresentava nos centros de cultura nordestina. O poeta faleceu na cidade de Serra Branca na década de 90.

Escrito por Flávio Magalhães às 12h00
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Rato Flávio

Os poemas desta página são de autoria de

Flávio Magalhães

 

LÍNGUA MORTUÁRIA

 

O suicídio-vermífugo

Sangrando falsas-palavras

Nervos nas verticais.

Neurônios retardados

Exaustos de mediocridade

Simetria cravada

Na loucura da janela

Onde se perderam

Todas as metáforas.

Não há mais canções vermelhas

Enclausuradas na versão

Do espelho.

Apenas a língua imóvel

Transitada pela fumaça

Do cigarro,

Verbo-morto pelo veneno

Amorfo dos sem(tidos)...

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

 

BECO DA FACADA

 

João, bandido da fedentina do beco do lixo

Toma conta da madrugada

Horrorizando horizontes

Na solitária linha do trem

 

Crasher Lomma bailava

Sobre seus desejos

Com hálito de cachaça e fumo

E um enfadonho guisado

Feito especialmente para ele.

Poeira & abandono angustiam a rua

Ratos passeiam

Sob a luz do poste,

Cães uivam ao léu

 

João está bem vivo

Apesar da Polícia no seu encalço

Escrito por Flávio Magalhães às 11h52
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Sua pistola está sempre cheia

De balas sabor metálico

Não vai ser fácil capturá-lo...

 

A vizinhança

Covardemente dorme

Enquanto, mecanicamente,

Ele faz amor com Crasher Lomma

 

Tempo, verme abstrato,

Passa rápido

Ao encontro da Sra. Morte...

Está amanhecendo,

Tenho que ir de encontro

Da minha sorte.

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

 

BALA(DA) PERDIDA

 

O Príncipe Inglês pediu 10%

O Vendedor de notícias alheias

Anunciou a canção matemática

Informante, comovente...

Cantas uma balada

De repente para o Príncipe.

Nada feito, gritou servil(mente)

Com sua voz rouca,

Só se virar matéria de jornal.

- São 22% e não se fala mais nada!

A violência pode ser negociada

Pense grande, Príncipe Inglês.

- São 40% e não se fala mais nada!

- OK, você venceu...

 

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- Os poemas desta página são de autoria de Flávio Magalhães. “Beco da Facada”,

 publicado, originalmente no C.R. nº 65, novembro de 1998.

Escrito por Flávio Magalhães às 11h50
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Rato Sandro

UM DRAMA NO FERRO NOVO

 

 

NARRO DE FORMA ESPONTÂNEA

UMA HISTÓRIA PRO  POVO

NO BAIRRO DO FERRO NOVO

NA CIDADE DE SERTÂNIA

COM UMA LUZ INSTANTÂNEA

A VIATURA NA PORTA

>E  UMA VERDADE TORTA

ENVOLVE UMA INOCENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

 HOJE SE LEVANTA FALSO

CONTRA UMA MÃE DE FAMÍLIA

BANDIDO EM SUA HOMILIA

ENVOLVE A JUSTIÇA EM LAÇO

COMPANHIA PRO  FRACASSO

PRÁ ELE  NÃO SOFRER SÓ

E  UMA CENA DE FAZER DÓ

ME DOEU AMARGAMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

Escrito por Flávio Magalhães às 11h45
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OS FILHOS SÃO PASSARINHOS

EM FOME, FRIO E MALTRATO>

PERDIDOS LÁ PELO MATO

POR NÃO TER CALOR NO NINHO

TODO ESSE BURBURINHO

ME LEMBRA OUTRA QUITÉRIA

QUE A INJUSTIÇA DELETÉRIA

 ACUSOU MALDOSAMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

 NÃO FALTA JURISPRUDÊNCIA

NESSE EXEMPLO CITADO

NOS DEIXA PENALIZADO

AO SE VER TANTA CARÊNCIA

É DE FALTAR PACIÊNCIA

COM TANTOS ENGRAVATADOS

SEM SEREM INCOMODADOS

SE  AGEM IMPUNEMENTE

>CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

O PAI GRANDE PASSARINHO

JÁ FALA EM VENDER A CASA

POIS  FICOU SEM UMA ASA

PERDIDA PELO CAMINHO

ENFRENTA QUALQUER ESPINHO

PRÁ PAGAR UMA FIANÇA

SENTE A DOR DE UMA CRIANÇA

PELA MÃE QUE TÁ AUSENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

Escrito por Flávio Magalhães às 11h34
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QUER SABER QUEM É QUITÉRIA?

PERGUNTE NO FERRO NOVO

AO POETA GATO NOVO

LAMENTANDO ESSA MISÉRIA

VIZINHA HONESTA E SÉRIA

>SOFRENDO ESTA FERIDA

A CHAGA DA APARECIDA

TÃO CONHECIDA DA GENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

 COM MALUF EM LIBERDADE

RESPONDENDO SEUS PROCESSOS

EU PERGUNTO NOS MEUS VERSOS

ONDE ESTÁ NOSSA  IGUALDADE?

E PRÁ TODA AUTORIDADE

QUE NÃO ENXERGA ESSE DRAMA

INDA REPOUSA NA CAMA

DORMINDO TRANQUILAMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

UM ALVARÁ DE SOLTURA

>PEÇO AO JUIZ DA COMARCA

QUE DEIXE ASSIM SUA MARCA

COM A PENA DA TERNURA

FAZENDO LITERATURA

AO INVÉS DE LETRA FRIA

O PAÍS BEM PODERIA

SER MAIS JUSTO E MAIS DECENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

DEIXO AQUI A PETIÇÃO

DE UM VATE DO MOXOTÓ

EXPRESSANDO A SUA DÓ

DA RACIONAL EMOÇÃO

E  CONFIO NO CORAÇÃO

TAMBÉM NA SABEDORIA

QUE A LEI SERÁ POESIA

PRÁ NÃO DEIXAR TRISTEMENTE

CINCO FILHINHOS CHORANDO

E  A MÃE PRESA INJUSTAMENTE

 

O poema desta página é de autoria de

Josessandro Andrade.

 

Escrito por Flávio Magalhães às 11h30
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Pirão de Repente 2


Mote: Brilha o sol iluminando

          Tudo quanto a terra cria.

 

Desponta o sol no nascente

O camponês vai pra roça,

A porca velha se coça

Nos tijolos do batente,

Corta mato com o dente,

Faz uma cama e dá cria,

Sem precisar cirurgia,

Nem parteira tocaiando,

Brilha o sol iluminando

Tudo quanto a terra cria.

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

(De: João Paraibano, Princesa Isabel/PB. Decassílabo extraído do livro Poetas Encantadores, de Zé de Cazuza)

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VELHOS HÁBITOS

 

Pedro Álvares, o “Cabral”,

Não descobriu nossa terra

Ele só viu uma serra

E achou que era o tal.

 

Logo ancorou sua Nau

Lá pros lados da Bahia

Onde andou na companhia

De um bando de marginal.

 

Voltou para Portugal

Como um herói lusitano

Que nunca foi puritano

Nem nas noites de Natal.

 

Roubou-nos até o Pau

Que havia nas florestas

Fez instrumentos de festas

Na maior cara de pau.

 

Cabral causou muito mal

Com a sua “descoberta”

Somente uma coisa é certa:

Tudo virou Carnaval.

 

Se não fosse Portugal

A pátria do conquistador

Nossa terra era esplendor

A potência Ocidental.

 

Hoje somos um portal

Pra ralé do estrangeiro

Que vem gastar o dinheiro

Em turismo sexual.

 

Os políticos fazem igual

Nas granjas de aluguel

Discípulos de Maquiavel

Que agem igual a chacal.

 

Roubam pra ir pro jornal

E ficar mais conhecidos

Ajudando aos bandidos

Criam lei quase imoral.

 

Nessa terra colossal

Plantando, tudo se dá,

Vote certo e mudará

Os costumes de “Cabral”!

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

(De: Eugênio Gomes de Macêdo, Sumé/PB)

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“Quando eu canto com Biu Gomes,

   Meu medo desaparece

   Eu dou um grito estrondoso

   Que toda serra estremece

   Quem está embaixo, não sobe

   Quem está em cima, não desce.”

 

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

(De: Cabo Edésio, repentista monteirense, dando seu “cartão de visita”

ao parceiro de cantoria, o poeta Biu Gomes, numa bodega na cidade de Monteiro)

Escrito por Flávio Magalhães às 11h23
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EVANGELHO SEGUNDO AS MÃES

 

god god god

um dia disse à minha mãe

que deus em inglês

parecia com o cão:

dog dog dog

 

ela me ameaçou com apocalipses

e não se falou mais nisso.

 

 

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(De: Samuca Santos, Recife,  ocupante do Tamborete 3 da Galeria dos Mortais, que tem como patrono o também poeta Erickson Luna)

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ESPERANÇA (In Memorian)

 

Ouço moedas caírem no chão.

São trinados nefastos,

Trilha sonora do Apocalipse,

Acordes da escuridão.

 

Ouço gritos entre bombas

Míseros ecos em tempo aberto

Alinhados à frente do acaso

Desgraça programada via ondas.

 

Aqui Golias sempre vence Davi

E não adianta persistir

Pois esta é a tétrica sina.

 

Os leões mitômanos espalham ânsia,

Aniquilam – financiados por marionetes

Sepultam a esperança.

 

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(De: Rodrigo Santos, Serra Branca/PB. Poeta editor da Revista de Divulgação Literária RACHA QUENGO)

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PROPIAÇÃO

 

Eu fui o maior onanista de meu tempo

Todas as mulheres

Dormiram em minha cama

Principalmente cozinheira

E cançonetista inglesa

 

Hoje cresci

As mulheres fugiram

Mas tu vieste

Trazendo-me todas no teu corpo.

 

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(De: Oswald de Andrade, 1890 – 1954, poeta paulista e um dos principais integrantes do movimento da Semana de Arte Moderna de 1922)

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. para sui e cida

 

de tanto morrer antes

foice veloz no pescoço

de vez

 

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(De: Vamberto Spinelli Júnior, João Pessoa/PB)

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MÁGICO APOSENTADO

 

No quarto de ilusões

os objetos em repouso:

flores que viram lenços,

cartolas de fundos falsos,

cornucópias, espadas e espelhos.

Apenas as pombas jogam cartas

para matar o tédio

de uma assistência de coelhos.

 

 

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(De: Herval Mendes, Recife/PE. Poema extraído do livro A Madrugada e o Devaneio)

Escrito por Flávio Magalhães às 11h14
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Rato Zito

- Os poemas desta página são de autoria de Zito Jr.

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 À TODAS AS COISAS

 

Todas as coisas cansam umas das outras

Todas as coisas choram as suas perdas

E lamentam aquele momento fugidio

Entre as horas e as doces sobremesas

Saboreadas fartamente

No mundo dos espelhos.

Quero de volta meu jardim

Quero de volta meu bom dia

Meu fim de semana

Minha alegria.

Quero de volta meu anjo cor de canela

Quero de volta meu poema da manhã

Meu quadro miniatura, a janela,

Minha fada vestida de sol e pardais

Entrando pela porta que abro

Um olhar e um sorriso tímido

Batendo os tambores do meu peito.

Quero de volta todas as coisas

Que me emprestaram a felicidade

E que eu deixei cair pelo caminho...

 

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Mote: Em teu corpo desnudo eu encontrei

          O manjar que foi minha salvação.

 

Corri mundos, revirei pedras e achei

A certeza e também a negação

Os meus sonhos primeiros calcinados

Pela sorte madrasta em cruel ação

E num ato enlouquecido por muitos,

Entrei no olho de um enorme furacão

Em teu corpo desnudo eu encontrei

O manjar que foi minha salvação.

 

Vislumbrei belo céu e negro inferno

Em silêncio fiz minha observação

Fui soldado dentro dum fogo cruzado

E a morte deu-me sinal com a mão

Atravessei pontes , saltei muros

E fiz sólida uma outra construção

Em teu corpo desnudo eu encontrei

O manjar que foi minha salvação.

 

 

Esculpi as pedras em meu caminho

Balbuciando com fé minh’oração

Feri egos, queimei tratos e bandeiras

Vaguei sozinho no meio da escuridão

Comi meu prato frio, só de veneta

Mas quebrei as travas da minha prisão

Em teu corpo desnudo eu encontrei

O manjar que foi minha salvação.

 

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NATURAL

 

Toda ação, provoca uma reação.

Minha desculpa, minha maçã do amor

No poema-carrossel que nunca pára.

 

poemas  da autoria de Zito Jr

 

Escrito por Flávio Magalhães às 11h11
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- JANEIRO DE 2009

- EDIÇÃO Nº 113

- ANO XXI

- Fundado em 09/12/1988

.........................................................

  EDITORES:

- Álvaro Góis

- Flávio Magalhães

- Josessandro Andrade

- Zito Jr.

 

NESTA EDIÇÃO:

* BIU GOMES, nossa capa

* Ivanildo Vila Nova

* Raimundo Caetano

* João Paraibano

* Eugênio Gomes de Macêdo

* Cabo Edésio

* Samuca Santos

* Rodrigo Santos

* Oswald de Andrade

* Vamberto Spinelli Júnior

* Herval Mendes

* Derivaldo Santana

* Gabriela Emanuela

* Odilon Lima

* Rildo Mariano

* Ricardo Mariano   

   

 

 

  Editores:

- Álvaro Góis

- Flávio Magalhães

- Josessandro Andrade

- Zito Jr. (zitojr@gmail.com)

......................................................

- Ilustrações: Zito Jr.

  Designer: Zito Jr./Raniere Soares

.......................................................

Endereço para Correspondência:

Cabeça de Rato

Caixa postal 20     Sumé-PB

CEP: 58.540-000

......................................................

Para qualquer contribuição de livre e espontânea vontade:

C/C 5.804-1  Ag. 2697-2

BB Sumé-PB

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Escrito por Flávio Magalhães às 11h03
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20/01/2009


Aqui vai umas poesias de um grande  amigo e poeta de Zabelê, autor do Livro "Meio Doido Meio Poeta"  como ele mesmo diz:"Zabelê me pariu, Recife me adotou".

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Meio Doido, Meio Poeta

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Sou meio doido e meio poeta
nem crente nem fariseu
não sou besta nem sabido
nem católico nem ateu
para falar a verdade
não sei inda quem sou eu

---

O mundo me concedeu
morar no mato e na rua
hoje vivo mas tranquilo
mas a luta continua
minha vida já foi torta
que só um arco de pua

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Minha idéia é como a sua
a sua você conhece
quando a cabeça tá bamba
as pernas não obedece
aonde existe verdade
mentira não prevalece

---

Quem apanha nunca esquece
quem pergunta quer saber
quem procura um dia acha
quem tem fome quer comer
só dar para o que não presta
quem não tem o que fazer

---

Portanto quero dizer
a você quem sou agora
eu sou uma andorinha
que o bando botou pra fora
como uma alma penada
vagando de mundo afora

---

Se você não ignora
eu lhe digo meu irmão
sou caminhante andarilho
retirante do sertão
limpando o suor do rosto
nos panos do matulão

---

Sem rumo sem direção
meu ego sem tino avança
ora alegre e ora triste
ora adulto ora criança
igual celular de puta
sem crédito e sem confiança

---

Meu espírito não se cansa
desde os tempos de menino
sigo a jornada da vida
com prudência tato e tino
feito um veículo sem freio
pelas curvas do destino

---

Com chuva ou com sol à pino
eu adoro viajar
o destino não importa
o importante é chegar
se não vou sinto saudade
se chego quero voltar

---

No dia que eu me acabar
escrevam no meu caixão
"AQUI JAZ UM IMIGRANTE
QUE FEZ SUA HABITAÇÃO
NA CIDADE DE RECIFE
MAS SEMPRE FOI AO SERTÃO"

---

São Pedro preste atenção
pra que o senhor não se iluda
se o sistema aí falhar
e não tiver quem lhe acuda
pode chamar essa alma
que com certeza lhe ajuda

---

Apresente a ele Buda
Charlie Chaplin e Lampião
Pinto velho do Monteiro
Bin Laden e rei Salomão
que ele falava neles
em mais de uma ocasião

---

Quem vive assim tem razão
de sorrir de vez em quando
bebendo ouvindo piadas
curtindo a vida e brincando
e das ciladas da vida
viver sempre se livrando!

---

Eduardo Viana

Escrito por Flávio Magalhães às 19h09
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UM ÉBRIO

---

Os sentimentos do ébrio
Não tem medida que meça
Por sonhos e pesadelos
A vida lhe prega peça.
Quando a saudade desaba
Sua alegria se acaba
Onde a tristeza começa.

---

O ébrio às vezes tropeça
No degrau da amargura
Afogando suas mágoas
Em busca de uma cura.
Mas quando vai para o chão
Jesus estende uma mão
Dar um sopapo e segura.

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Pela falta de ternura
De forma inconveniente
Perturba a sociedade
Tornando-se um delinqüente.
Contra a própria natureza
Em meio a sua fraqueza
Só ele sabe o que sente.

---

Talvez passe em sua mente
Lembranças de uma paixão
Um passado que não volta
Corroendo o coração.
Ou seja, lá por que for
Deixem curar sua dor
Revivendo a emoção.

---

Se tem alucinação
Devaneio ou vaidade,
Na embriaguez encontra
Sinais de felicidade.
Quem não puder ajudar
Evite então condenar
Sua sensibilidade.

---

Por qualquer fatalidade
A alma sente um tormento,
Sujeito a frio e sereno
E intempéries do vento.
De lágrimas o rosto se molha
Mas lá de cima Deus olha
Todo seu padecimento.

---

Vivendo no sofrimento
Sentindo desilusão
Por ninguém compreender
Seu pesar e aflição.
Nessa vida passageira
Atire a pedra primeira
Quem não sofreu por paixão.

---

Todo ébrio tem razão
Pela sua insensatez
Pois é vítima da Indústria
Do álcool, por sua vez.
Devia ser amparado
Pois o Comércio é culpado
Pela sua embriaguez.

---

Desculpe o ébrio, talvez
Não seja ele tão ruim.
Mesmo ele tendo defeito
Com artimanha e pantim.
Não o chame vagabundo
Pois eu duvido no Mundo
Quem não tem parente assim.

--


Em bodega ou botequim
Não corrija com reprovo
Vendo ele correr perigo
Faça ciente o seu povo
Não lhe dê o abandono
Deixe ele dormir um sono
Pra depois beber de novo.

 

---

Eduardo Viana...

Escrito por Flávio Magalhães às 18h38
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19/01/2009


NÃO TENHO MEDO DE NADA  (parte 01)
(ensaio para um folheto de cordel)
 
O folclore conta coisa
Que até o diabo duvida
Com riquezas de detalhes
Numa ação mais atrevida
Esmiúça, põe ao avesso
Passagens de sua vida
 
Um Cururu me contou
História pra se gravar
Em qualquer bom documento
Que agüente atravessar
Anos, séculos e milênios
E o fim, se ele chegar
 
Como toda boa história
Traz de praxe a tradição
De se criar em cima dela,
Construir-se outra versão,
Diferente não foi com esta
Passada no meu Sertão
 
Zona rural de Sertânia,
Lá no sítio Caroá,
Nasceu cabra cangaceiro,
Difícil de encontrar
Outro igual em todo o estado
Só mesmo se importar
 
Como todo sertanejo
Dura foi a sua vida
No seu cantinho sonhou
Em meio a toda uma lida
Trabalhou, fez sua parte,
Pra cidade, sua ida
 
Morando na Rua Velha
Amizades ele formou
Colegas só de cachaça
Foi o que mais encontrou
Outros sonhos vieram à tona
Muitas musas desejou
 
Assim, tocou o destino
Muitas rotas ele tomou
Queimou pestanas estudando
Num Concurso ele passou
E a partir desse dia
A estrada suavizou
 
Mora hoje na Paraíba
Monteiro é o lugar
É um competente carteiro
Movido à luz solar
Entrega as correspondências
Sem ter direito a errar

Escrito por Flávio Magalhães às 11h38
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Parte 02:

Mudaram-se suas atitudes
Não mais é mosca de bar
É magro como era antes
Não tem como engordar
Exercita-se diariamente
Andando de cá pra lá
 
Mas sua vida pessoal
Não quero aqui abordar
Deram-me um outro mote
Que não pude recusar
E o caso do curandeiro
Agora vou começar:
 
Certo dia, lá no sítio
- E mestre Tota não mente -
Tirando ração pros bichos
Ouviu-se, assim, de repente:
- Não tenho medo da morte,
Nem de feras, nem de gente!
 
Foi um esturro medonho
Que passarinho assombrou
Mocós saíram das locas
Preá, caminho cruzou
A coruja na baraúna
Com o barulho se acordou
 
Bem no meio da capoeira
Deu o seu grito primal
Libertou os seus demônios
Fez, pra ele, o ideal
Deu um coice em velhos dogmas
Entrou noutro plano astral
 
Todo aquele entusiasmo
Com um feixe pra carregar
Sentiu uma forte fisgada
Furando seu calcanhar
Logo pensou: - Foi uma cobra
Que veio aqui me pegar!
 
Chamou quem estava perto
Pra ligeiro lhe ajudar
Pediu por todos os santos
Que conseguia lembrar
Dizia: - Sinto qu'é o fim!
Não posso assim terminar!
 
Recordaram de um curandeiro
Que morava ali por perto
Sem demora foram pra lá
Achando fazerem o certo
- Depressa, que tô morrendo!
'Inda quero ver meus "neto"!
 
Na cabana, onde o "véi" tava
Perto dum fogo sentado
Havia um caldeirão
Com ervas prum preparado
O velho mascava fumo
E fumava um baseado
 
Vendo aquela fuzarca
O velho se levantou
Bateu a poeira das calças
Da turba se aproximou
Deu uma forte escarrada
Só então que perguntou:
 
- O que diabo acontece?
Poderiam me dizer?
Comida só tem pra um,
Para mais num "vamo" ter!
- Viemos em emergência,
Nós não queremos comer...
 
Contaram pro curandeiro
Que dizia ser curado
De mordida de toda cobra
Da caatinga ao serrado
- Pra curar, tenho meu preço
E num curo no fiado.
 
- O seu preço não importa
Eu só não quero morrer!
Faremos aqui uma vaquinha
Dinheiro o senhor vai ter!
Não se preocupem, amigos,
Pagarei se eu viver...
 
Trinta Reais mais moedas
Juntaram na ocasião
O "véi" até achou pouco
Quis mudar de opinião
Mas logo se apiedou
Vendo aquela situação.
 
E com certa má vontade
Pediu pra ver o doente
Botou o seu olho clínico
No inchaço aparente
Localizou sem demora
A marca de um só dente
 
- Você teve muita sorte!
O velho analisou
- Não foi todo o veneno
Qu'essa cobra lhe botou
Mas metade de uma "carga"
Por isso, não lhe matou.
 
- Só qu'isso não quer dizer
Que você já escapou
O mal corre em suas veias
Mesmo o pouco que entrou
Se chegar lá pelos "peito"
Sua vida já findou...
 
 
O velho tirou a camisa,
Fez toda uma preparação:
Passou cinzas pelo corpo
Pôs um colar de cordão
Beijou uma correia de couro
Fez profunda oração
 
Deitou o moço numa esteira
Um tanto que assombrado
Pediu para os dois amigos
Ficarem bem do seu lado
Passarem um pouco de fé
Pr'ajudar no resultado
 
Chamou uma forte tragada
Que quase finda o cigarro
E soprou no ferimento
Cobrindo-o, depois, cum barro
Produzido por cinzas negras
E uma porção de catarro
 
Terminada esta fase
Foram pro encerramento:
Duas cusparadas na boca
O "véi" deu como ungüento
- Tá curado! - disse ao rapaz
Naquele exato momento
 
- Só depois de uma hora
(Pra cura se consumar)
Você pode beber água
Ou o que bem desejar.
Disse o velho, despedindo-se,
Voltando fumo a mascar
 
E na curva da estrada
Os três amigos sumiram
Com o suposto curado
Pelo caminho eles riram
Sentiram-se aliviados
Por todo o drama que viram
 
Chegando em casa puseram
O moço pra se deitar
Dentro dum quarto isolado
Pra ninguém poder olhar
Assim se completa a cura
Não se deve descuidar
 
Passaram-se uns três dias
Era quase fim de mês
O aperreio aumentou
Pânico se instalou de vez
Nada do pé desinchar
- Que diabo o "véi" fez?
 
E então voltou o medo
Da morte, por fim, chegar
- O que foi que deu errado?
Começou a imaginar
Chegou febre, calafrios
E vontade de mijar
 
De aspecto bem abatido
Abriu a porta do quarto
Assustou quem tava em casa
E já conhecia o fato
Barbudo, olhos profundos...
Nem todo bicho do mato
 
Sua pele ficara amarela
Por não ter a luz do dia
Sua preocupação maior:
Não perder o que acontecia
Lá na Estação das Artes
A Semana já fervia
 
No Alto do Rio Branco
Festança em ebulição
Entrava pela madrugada
Forró, xote e baião
Cá embaixo, outros artistas
Faziam apresentação
 
- Me levem pro hospital
Tenha, ao menos, dó de mim
Eu estou passando mal
Isso não é pra ser assim
Aquele "véi" me enganou
Bem próximo tá o meu fim
 
E numa carroça de burro
Levaram-no pro hospital
Estrebuchava que só um porco
Já prevendo o seu final
Na recepção, faz-se a ficha
Procedimento usual...
 
-Que ficha, que nada!
Não tão vendo a gravidade!?
Eu fui mordido de cobra
É grande a enfermidade
Só depois de atendido
Farei a sua vontade.
 
Em mais um "Deus nos acuda"
Foram ao médico de plantão
Resumiram toda a história
Com uma certa comoção
Só depois o médico olhou
A terrível inflamação
 
- Doutor, somente o soro
É a minha salvação!
Exclamou o pobre coitado
Com o coração na mão...
- Não vai ser preciso soro
Mas, pinça, iodo e algodão...
 
 
- O que o senhor tá dizendo?
É caso de amputação?
- Nada disso, meu rapaz...
(O doutor fez mangação)
- O motivo foi um espinho,
Do qual farei extração
 
E o doutor com uma pinça
Fez uma leve pressão
Tirou a ponta de um espinho
Do local da inchação
Passou iodo, limpou,
Enfaixou com precisão
 
Mesmo convalescente
Uma roupa nova botou
E partiu pra estação
Cheirando que só "fulô"...
Pegou uma programação,
Fez um canudo e "vazou"
 
Espetáculos, oficinas e torneios
Movimentaram o pátio da estação.
Palestras, lançamentos, musicais...
O Cabeça de Rato em mais uma edição,
Josessandro declamando para o público
E Tonho Amaral tomado pela emoção
 
Grandes nomes desceram deste trem:
Romualdo Freitas, supra-sumo teatral,
Grande Bida bolinando com a memória,
Talentos de Rona, Ricardo, Kalu Vital...
Do Pajeú veio a poesia nas asas de Cancão
Aplaudir o canto mágico de César Amaral
 
Quanto àquela falsa cura,
Toda a história se abafou.
Só de lembrar, vez em quando,
Muito já se vomitou...
- O safado do curandeiro
Foi quem me engabelou!
 
Agora, com o pé mais desinchado,
Assistia à festa da cultura.
Entre amigos, este foi o combinado:
O passado entregue à sepultura!
Diz a todos que deixou de beber,
Mas pra alguns ele já quebrou a jura.
 
- Deus permita que eu logo fique bom,
Pois não quero perder o Carnaval...
(Na TV a "prexeca" dava ibope;
Em Sertânia, esperava-se o Bacalhau...
É com honra que a memória de Romeu,
Enriquece festa tão tradicional)
 
Fui discreto, agi com polidez
Com o "santo" que aqui foi evocado
Não citei o seu nome, fui cuidadoso,
Pra mais tarde, eu não ser processado
Como cristão, faz pena, qu'ele até hoje
Com gente nunca tenha namorado.
 
(De: Zito Jr., concluído em 09 de fevereiro, Dia do Frevo)

Escrito por Flávio Magalhães às 11h25
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